quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Arquiteto Oscar Niemeyer morre aos 104 anos no Rio de Janeiro

Morte de Niemeyer foi confirmada às 21h55.
Reconhecido internacionalmente, completaria 105 anos em 15 de dezembro.

Oscar Niemeyer, de 104 anos, morreu no Rio. O arquiteto estava internado desde 2 de novembro no Hospital Samaritano, em Botafogo, Zona Sul da cidade.
Reconhecido internacionalmente por suas obras, Niemeyer completaria 105 anos em 15 de dezembro. A morte dele foi confirmada às 21h55. Veja mais sobre a repercussão no Brasil e no mundo da morte de Niemeyer nos vídeos ao lado.
Perfil
Uma, duas, três curvas. Foi assim, quase que por acaso, em 1940, que nasceu o desenho da Igreja da Pampulha. Ali nascia também a paixão pelo caminho sinuoso.
“Eu procurei uma forma de arquitetura diferente, mais vazada, mais leve, principalmente diferente, que construísse essa ideia de que arquitetura é invenção. E esse foi o tipo de arquitetura que eu fiz, que me agrada e venho fazendo a vida inteira”, afirmou Niemeyer.
O jovem arquiteto já havia feito outras obras e participado com destaque da equipe de criação do prédio do Ministério da Educação no Rio de Janeiro, mas vinha buscando uma expressão própria, uma marca, uma assinatura.
“Eu queria uma arquitetura que não fosse, não lembrasse, uma arquitetura feita com régua e esquadro. Uma arquitetura assim com mais fantasia. Cada um faz o que quer e assim que eu faço a minha”, disse Niemeyer.
A arquitetura de Niemeyer se casava perfeitamente com a imagem de um Brasil que se modernizava. O governador que construiu o conjunto da Pampulha em Belo Horizonte virou presidente. Juscelino Kubistchek convidou o arquiteto Oscar Niemeyer e o urbanista Lucio Costa para um sonho maior: em pleno cerrado, no coração do Brasil, fazer uma cidade inteira.
“Quando eu chego perto de Brasília, parece um milagre. Eu fico pensando, achando quase impossível o Juscelino ter feito aquela obra em três anos e meio. Porque hoje, para a gente fazer dez edifícios, leva uns três anos, dois anos, depende do ritmo. Mas Brasília tinha que fazer as ruas, tinha que fazer tudo, uma cidade inteira”, explicou o arquiteto.
Nas asas da cidade que Lucio Costa planejou, Niemeyer desenhou dezenas de obras: praças, rampas, uma catedral, muitos palácios. “Acho que foi uma coisa fantástica, foi um momento assim de otimismo, uma cruzada assim fantástica, e mostrou pelo menos que a gente pode fazer as coisas também”, disse.
Quando veio a ditadura militar, Niemeyer, comunista por ideologia, foi vigiado e perseguido. Passou longo tempo fora do Brasil. “O clima ficou ruim para mim... Eu fui para fora. De modo que eles queriam me paralisar, me deram a possibilidade de mostrar no exterior a minha arquitetura”, afirmou.
Suas curvas ganharam o mundo: ele tem obras na Itália, na Argélia, na França, na Espanha. Niemeyer sempre se orgulhou de lutar por mundo mais justo. Jamais pensou em acumular bens. O dinheiro que ganhava com grandes projetos usava também para ajudar os amigos.
Quando soube que o líder comunista Luís Carlos Prestes não tinha onde morar, comprou um apartamento para ele. O motorista do arquiteto ganhou uma casa projetada por ele na favela do Vidigal.
Diante da bela paisagem da Princesinha do Mar, o escritório de Copacabana era o local de encontro dos amigos, do debate, dos estudos, da livre circulação das ideias. E as ideias desse nosso mestre das curvas pareciam jamais se esgotar.
Para São Paulo, o Memorial da América Latina. Para Curitiba, um olho gigante para abrigar a arte contemporânea. Para Niterói, um disco voador, pousado às margens da Baía de Guanabara.
Para quem sempre disse que a vida é um sopro, que o homem é um grão de poeira no imenso universo, Oscar Niemeyer parecia sempre ultrapassar barreiras da idade, os limites do tempo.
Aos 99 anos se casou novamente, com Vera, a companheira de uma vida de trabalho. Aos 100, confessou que se sentia como se tivesse apenas 60 anos e fez festa na bela Casa das Canoas, que construiu no Rio, entre as pedras e a mata, 50 anos antes.
Com 101, lá estava ele, supervisionando obras. Estava no show do amigo Chico Buarque em 2011, e, no calor do verão de 2012, admirando a ampliação da Passarela do Samba.
Surpreendente? Genial? Fora do comum? Ele não se achava nada disso. “Um homem comum que trabalhou como todos os outros, que passou a vida debruçado na prancheta e se interessou pelos mais pobres, que amou os amigos, a família, como a maioria, nada de especial”.
 

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